O que está em jogo nas eleições brasileiras
Em meio a uma profunda polarização, o Brasil vai às urnas no domingo (4) para escolher entre dois modelos de país propostos pelo presidente esquerdista Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e pelo senador de direita Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Estas são as principais questões em jogo.
- Reduto da esquerda ou aliança de direita? -
A América Latina deu uma guinada à direita nos últimos anos: Javier Milei na Argentina, José Antonio Kast no Chile, Rodrigo Paz na Bolívia e, mais recentemente, Abelardo de la Espriella na Colômbia e Keiko Fujimori no Peru.
Uma vitória de Lula manteria o Brasil, que concentra cerca de metade do PIB e da população da América do Sul, como o grande reduto da esquerda na região, junto ao México.
Por sua vez, o senador Flávio Bolsonaro somaria o país à onda da direita.
Oliver Stuenkel, professor da Fundação Getulio Vargas, relativiza, contudo, o peso da ideologia nas relações regionais.
"Esse alinhamento total é mais retórico, me parece, do que substancial", disse à AFP.
Lula, líder veterano e pragmático, mantém vínculos convencionais com Kast e Paz. Com a Argentina, parceiro estratégico comercial do Brasil, a relação mudou pouco apesar dos ataques de Milei contra o chefe de Estado brasileiro, recorda Stuenkel.
- Relação com Washington -
Donald Trump, aliado do ex-presidente de extrema direita Jair Bolsonaro (PL), impôs tarifas punitivas sobre produtos brasileiros e sancionou ministros e outros funcionários.
Se Lula vencer, Washington continuará recorrendo a ameaças e tarifas seletivas, seus "instrumentos estratégicos permanentes de negociação coercitiva" para frear os laços com a China, prevê Regiane Bressan, professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo.
Os Estados Unidos são o segundo maior parceiro comercial do Brasil, atrás da China. Com Flávio, haveria um alinhamento com Washington, "pelo menos discursivo", diz Bressan à AFP.
Entretanto, qualquer afastamento comercial de Pequim esbarraria em "um veto imediato" do poderoso setor do agronegócio, aliado do direitista, mas que tem o país asiático como principal cliente.
- Teste para a democracia -
Jair Bolsonaro atacou durante anos, sem provas, o sistema de votação eletrônica e nunca reconheceu publicamente sua derrota de 2022.
Em 8 de janeiro de 2023, milhares de seus apoiadores invadiram as sedes dos Três Poderes em Brasília para protestar contra uma suposta fraude.
No início de sua campanha, Flávio semeou dúvidas sobre as urnas eletrônicas, embora depois tenha afirmado que respeitaria os resultados.
Na semana passada, Lula defendeu na ONU um sistema eleitoral "moderno e robusto" e advertiu que não permitirá que "os inimigos da democracia, internos e externos" atentem contra a vontade popular.
- O futuro do STF -
O pleito de domingo também renovará integralmente a Câmara dos Deputados e dois terços do Senado, de maioria conservadora nos últimos anos.
Isso também é importante porque o próximo presidente poderá nomear até quatro dos 11 ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), que são ratificados pelo Senado.
Em abril, a Câmara Alta rejeitou o candidato de Lula ao tribunal máximo, algo que não ocorria há mais de um século.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, tem atacado a corte e defende a destituição do ministro Alexandre de Moraes, responsável pelo julgamento que condenou seu pai a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado.
- A Amazônia e a mudança climática -
O Brasil é uma figura central no combate à mudança climática por abrigar a Amazônia, a maior floresta tropical do planeta. Mas o tema está ausente da campanha, apesar de 91% dos brasileiros considerarem importante que os candidatos apresentem propostas sobre o clima, segundo uma pesquisa da empresa Ipsos divulgada pelo Observatório do Clima.
O desmatamento caiu fortemente durante o governo Lula, que mantém sua promessa de acabar com ele até 2030.
Ao mesmo tempo, o líder de esquerda apoia a exploração de petróleo perto da foz do Amazonas, com o argumento de que sua receita financiará a transição energética.
Flávio tem evitado atribuir o aquecimento global à ação humana. Ainda assim, promete acabar com o desmatamento em 2029, embora seu apoio ao agronegócio gere dúvidas sobre o cumprimento desta meta.
A.Simon--MJ