A aposta viking para fazer Ulisses navegar em 'A Odisseia'
Ulisses em um navio viking? Dois mil anos separam os dois universos, mas este foi o barco que, por uma questão de realismo, foi escolhido por Christopher Nolan para a navegação do herói grego de "A Odisseia".
Com sua ponte de carvalho que range e seus 50 remos de abeto, o Draken Harald Harfagre, a maior réplica moderna de um navio viking, trocou o imaginário das sagas escandinavas pelo da mitologia grega para as filmagens de "A Odisseia".
Durante meses, seus tripulantes — navegadores experientes — dividiram a travessia com Matt Damon (Ulisses) e um grupo de atores profissionais.
"Um dia, um dos atores sentado à minha frente enjoou e vomitou pela borda. Com o vento, caiu tudo em cima de mim", recorda o marinheiro Trammell Hudson.
"Pensei que seria minha grande cena, porque a câmera IMAX estava muito focada nele, comigo atrás, desviando dos respingos. Mas isso acabou não entrando no filme", contou ele à AFP durante uma escala do navio em Oslo.
O sucesso de bilheteria de Nolan, uma adaptação da epopeia de Homero, narra as vicissitudes de Ulisses em seu retorno à ilha de Ítaca após a guerra de Troia, no século XII antes da era atual.
- Entre réplica e autêntico -
"Encontramos um navio viking construído exatamente de acordo com estas especificações antigas. E ele tinha justamente o formato complexo e o aparelho que precisávamos para fazer um barco da Idade do Bronze", explicou Nolan.
"Pegamos a tripulação (...) e a fantasiamos. Eles se tornaram parte da equipe do filme. E os homens de Ulisses, os atores, se juntaram a eles e descobriram como içar a vela, como aparelhá-la, como remar", explicou.
Em vez de recriá-lo com imagens geradas por computador, Nolan queria um barco de verdade, capaz de navegar em mar aberto com homens de carne e osso.
"A maioria das cenas teria sido completamente diferente se não estivéssemos lá, fazendo as coisas de verdade, com um barco real, uma tripulação autêntica, em alto-mar e com condições climáticas reais", destacou Emanuel Persson, diretor da empresa norueguesa responsável pelo Draken.
"Acho que os espectadores conseguem realmente sentir a autenticidade dos materiais (...) você sabe que é de fato uma obra artesanal, não uma criação de computador", afirmou.
No navio, todos fizeram a sua parte.
"Matt Damon foi muito gentil e muito bom. Nunca reclamou. Todos os atores ficaram muito tempo lá fora e fazia frio, às vezes com o mar agitado. Ninguém reclamou, nada, nunca. Foi fantástico ver isso", lembrou o capitão do navio, Bjorn Ahlander.
Com uma tripulação tão variada a bordo, nem sempre era fácil remar em perfeita sincronia.
"É muito importante que os cem remadores se coordenem, porque os remos são muito compridos e se enroscam uns nos outros", observou Tramell Hudson. Ele lembrou ter sido lançado "um metro e meio no ar" junto com seu companheiro, quando a ponta do remo que compartilhavam se chocou com uma onda.
As lembranças das filmagens contrastam com as da vizinha Suécia. Como Penélope à espera de Ulisses, os donos de outro navio viking usado no filme tiveram que esperar um ano para serem indenizados depois que o barco foi danificado durante as filmagens.
E.Rizzo--MJ